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sábado, 3 de novembro de 2012


8ª. semana ~ de 5 a 9 de novembro





Bocage, desenhado por Roberto Nobre  (Revista Turismo, nº 59, Agosto-Setembro.1944)

- aqui -



  • Manual - textos pp. 144-145.
  • Autorretrato: Bocage, Alexandre O'Neill. 
  • Caricatura.


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Álvaro de Campos

I - Quando olho para mim não me percebo.
                I
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, (uns seis a sete meses antes do Opiário) Agosto 1913
1915

“Três Sonetos” Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. [- aqui-]





terça-feira, 10 de abril de 2012


26.ª semana ~ de 10 a 13 de abril







  • 3.º período - trabalhos a desenvolver; prazos.
  • Escolha do conto - trabalho individual, em aula e em casa.




[…]
Minha velha tia costumava adormecer-me cantando-me
(Se bem que eu fosse já crescido demais para isso)...
Lembro-me e as lágrimas caem sobre o meu coração e lavam-no da vida,
E ergue-se uma leve brisa marítima dentro de mim.
Às vezes ela cantava a «Nau Catrineta»:

Lá vai a Nau Catrineta
Por sobre as águas do mar...

E outras vezes, numa melodia muito saudosa e tão medieval,
Era a «Bela Infanta»... Relembro, e a pobre velha voz ergue-se dentro de mim
E lembra-me que pouco me lembrei dela depois, e ela amava-me tanto!
Como fui ingrato para ela — e afinal que fiz eu da vida?
Era a «Bela Infanta»... Eu fechava os olhos e ela cantava:

Estando a Bela Infanta
No seu jardim assentada

Eu abria um pouco os olhos e via a janela cheia de luar
E depois fechava os olhos outra vez, e em tudo isto era feliz.

Estando a Bela Infanta
No seu jardim assentada,
Seu pente de ouro na mão,
Seus cabelos penteava

Ó meu passado de infância, boneco que me partiram!
[…]


s.d. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 162. 1ª publ. in Orpheu, nº2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.