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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014


17.ª - 18.ª - 19.ª semanas ~ de 3 a 19 de fevereiro




Exposição “Visões – o interior do olho humano

Data: até 29 de junho de 2014
Local: Sala da Cortiça, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa





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Olhos

Olhos:
brilhantes da chuva que caiu
quando Deus me mandou beber.

Olhos:
ouro, que a noite me contou nas mãos,
quando colhi urtigas
e fiz arrepender as sombras dos Provérbios.

Olhos:
noite, que sobre mim resplandeceu, quando escancarei o portão
e atravessado pelo gelo invernoso das minhas fontes
saltei pelos lugares da eternidade.


Paul Celan, in Papoila e Memória
Tradução de João Barrento e Yvette K. Centeno



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Poemas de Reinaldo Ferreira - aqui

















segunda-feira, 29 de abril de 2013


29ª. semana ~ de 29 de abril a 3 de maio



David Krakov. Book of Life

- aqui -




  • Entrega dos trabalhos individuais.
  • Marcação das apresentações orais.



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Dorothea Lange. Migrant Mother, 1936

- aqui -


Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in Os Amantes Sem Dinheiro


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


16ª. semana ~ de 14 a 18 de janeiro




Georgia O'Keeffe, Blue Morning Glories

- aqui -


  • A lírica camoniana.


  • Ler e ouvir Camões.





 Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Luís Vaz de Camões, Rimas






















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Prémio Literário António Arroio - 

"Escrever com arte" - regulamento



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012


18ª. semana ~ de 30 de janeiro a 3 de fevereiro





Retrato de Simonetta Vespucci, Piero di Cosimo (1462-1521)



Nascimento de Vénus, Sandro Botticelli (1445-1510)




Portrait d'une Negresse, Marie Benoist (1769-1826)




  • Camões - A Mulher.



Endechas a Bárbara escrava



Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões, Rimas