"Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem/ou para beber a água de um espelho/ ou para se embriagar como um pássaro ingénuo" António Ramos Rosa
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Férias :)
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| Edward Hopper - aqui - |
Viajar!
Perder países!
Ser
outro constantemente,
Por a
alma não ter raízes
De
viver de ver somente!
Não
pertencer nem a mim!
Ir em
frente, ir a seguir
A ausência
de ter um fim,
E da
ânsia de o conseguir!
Viajar
assim é viagem.
Mas
faço-o sem ter de meu
Mais
que o sonho da passagem.
O
resto é só terra e céu.
20-9-1933
Poesias. Fernando Pessoa.
(Nota explicativa
de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).
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segunda-feira, 10 de junho de 2013
35ª. semana ~ de 11 a 14 de junho
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| Kiki Papastratou : Paysage marin - Aqui - |
- Final do ano letivo 2012-2013.
Ítaca
Quando partires de regresso a Ítaca.
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas,
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas
- versão de Jorge de Sena
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,
um Poseidon irado – não os temas,
jamais encontrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,
Poseídon em fúria – nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes
ou ela os não erguer perante ti.
Deves orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de Verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas,
E vai ver as cidades do Egipto,
para aprenderes com os que sabem muito.
Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apresses nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.
Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca, não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.
Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
Constantino Cavafy, 90 e Mais Quatro Poemas
- versão de Jorge de Sena
Constantin Cavafis : Ιθάκη - aqui
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sexta-feira, 31 de maio de 2013
34ª. semana ~ de 3 a 7 de junho
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| Marc Chagall. La nuit vert. - aqui - |
"La
felicità non è felicità senza una capra che suona il violino"
Das
vantagens de ser bobo
O
bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o
mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se
perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou
pensando."
Ser
bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de
sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem
a idéia.
O
bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão
sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e
estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria
para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo
é um Dostoievski.
Há
desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é
fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não
funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era a de que o aparelho estava
tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em
contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto
estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.
O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu.
Aviso:
não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem
menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo
a frase célebre: "Até tu, Brutus?"
Bobo
não reclama. Em compensação, como exclama!
Os
bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo
tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.
O
bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os
espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em
compensação os bobos ganham vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que
ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, como tolo, como fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, como tolo, como fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo
é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz
de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.
Clarice
Lispector, A Descoberta do Mundo, coletânea
de crônicas, publicadas no "Jornal do Brasil", entre 1967 e 1973.
Publicado em 1984, pela editora Rocco.
- Na voz de Aracy Balabanian – aqui
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sábado, 25 de maio de 2013
33ª. semana ~ de 27 a 31 de maio
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| José de Almada Negreiros - aqui - |
- Apresentações orais em atraso.
- Conclusão dos trabalhos do 3.º período - e do ano letivo.
![]() |
| A
torre de marfim não é de cristal, Almada Negreiros, 1937 - aqui - |
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ano letivo 2012_2013
sábado, 18 de maio de 2013
32ª. semana ~ de 20 a 24 de maio
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| Wassily Kandinsky. Circles in a circle, 1923 |
- Conclusão das apresentações orais.
- Teste sumativo.
A corrida em círculos
I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
Ana Hatherly, As aparências
I
O círculo é a forma eleita:
É ovo, é zero,
É ciclo, é ciência.
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
II
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa
Em nós se consumando,
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.
Ana Hatherly, As aparências
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Wassily Kandinsky
sábado, 11 de maio de 2013
31ª. semana ~ de 13 a 17 de maio
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Amadeo de Souza-Cardoso(Janellas do pescador), 1915- aqui - |
- Apresentação oral do trabalho.
<><><><>
"ROSAS
VERMELHAS"
Nasci
em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor,
um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.
E
todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de
Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe
abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um
ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam
nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
Nesse
tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era
o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu
abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E
respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo,
debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
E
tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do
irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos
retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos
pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as
muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se
sentava.
E
eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre,
eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por
vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa
parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
-
Mãe!
E
logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e
era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
Não
havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono,
ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:
-
Mãe!
E
logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo,
em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia
12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu
quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha
vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram
um rito no rito das estações.
Em
Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava
as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado,
dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil
chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar,
repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde
acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
Em
Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada
minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se
despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil
chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado,
alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz
longínqua do meu povo:
-
Coragem!
Eu
estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse
grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que
mandava embora os fantasmas?).
E
era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita
de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém,
batendo com os dedos na parede, me dissesse:
-
Bom dia!
era
terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por
sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque
acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
Mesmo
que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia
responder:
-
Bom dia!
de
cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia
12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e
rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.
Talvez
seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na
cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode
gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito
na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém,
ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as
traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu
apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se
conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se
conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com
que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:
-
Bom dia!,
mesmo
que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e
branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
É
certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro
caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que
algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
Os
fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da
ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio
da noite, e eu chamasse:
-
Mãe!
A
voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para
mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca
pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
Por
isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no
meu posto.
No
dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
Porém,
nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez –
quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro
abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar
as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma
rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.
Manuel
Alegre, in Praça da Canção
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Manuel Alegre
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