quarta-feira, 30 de novembro de 2011


11ª. semana ~ de 28 de novembro a 2 de dezembro




imagem: aqui


  • Teste sumativo.


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  • 30 de novembro de 2011, como bem lembra Amélia Pais, "Fernando Pessoa - evocação dos 76 anos depois de deixar de ter sido visto".

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HETERONÍMIA

As máscaras que se olham

José Saramago


Naquele jazigo do cemitério dos Prazeres, onde durante cinquenta anos os restos de Fernando Pessoa foram esquecidos (agora os transportaram para o Mosteiro dos Jerónimos e acomodaram em arca nova, perante uma plateia fúnebre de ministros e secretários de Estado), havia, como é costume cristão, uma cruz. De mármore, ou outra pedra calcária menos nobre, colocada a prumo sobre a fachada insignificante, o conhecido símbolo derramava sobre o defunto bênçãos para o imediato e promessas de eternidade. De quanto valham umas e outras não sou eu o competente contabilista, nem seria esta a ocasião para se apurarem transcendências tais. Digamos, no entanto, porque em algum ponto de doutrina terei de comprometer-me, que me incluo entre os cépticos.

Ora, a cruz desapareceu, já não está lá. Partiram-na ao rente do pé, deixando o jazigo subitamente nu, com aquele ar friorento e sem jeito que têm os homens quando lhes cortam o cabelo, ou as árvores quando são podadas. Não se sabe quem foram os autores do atentado sacrílego, desconhecem-se as razões do atrevimento. Mas a alma portuguesa, a mística alma, não pode deixar de sentir-se confortada ante o acto magnífico de roubar-se uma cruz de pedra só porque, durante meio século, ela velou o último sono de um poeta. Portugal, afinal de contas, não está perdido se filhos seus mantêm esta fé e praticam esta coragem. Acredito que sobre a cruz e o furto possam vir a ser lançados os alicerces de um culto novo, de que Fernando Pessoa seria, ao mesmo tempo, profeta e livro. E também não me surpreenderia se me viessem dizer que a esta mesma hora, numa qualquer cave de Lisboa, uma congregação de neófitos já vai elaborando um rito e inventando orações, ou simplesmente adaptando os velhos passes de mágica à nova esperança de redenção.

Há sempre um fundo de tristeza na ironia: a esta pouco lhe faltou para atingir a lágrima. Claro que não cairei na banalidade de interrogar-me sobre se Portugal merecia este poeta, como não pergunto se mereceu Camões. Mas torna-se cada vez mais evidente o carácter redutor da relação que, preconcebidamente ou pela obscura força das circunstâncias de tempo e de lugar, se está estabelecendo entre os portugueses vivos que hoje somos e o poeta morto e trasladado, mais emblema, ele, que homem, mais símbolo difuso que discurso coerente, mais pretexto evasivo que afirmação peremptória.

É possível que Fernando Pessoa tenha nisto grande responsabilidade. Homem de máscaras que olham máscaras, é como se só máscaras o pudessem ler e porventura compreender. Mas o que, sendo assim, produziria infalivelmente uma constelação de sentidos, de significados, de leituras infinitamente abertas e nunca conclusivas, veio, pelo contrário, a esbarrar com a tentação de definir um Fernando Pessoa unificado, do qual, por mera ramificação sucessiva, tivessem nascido heterónimos em qualquer momento reversíveis ao seu ponto de partida. Trabalho vão, em meu entender. Cada um de nós é quem é, mas aquele que em nós faz é outro. Fernando Pessoa soube-o melhor que ninguém, e os heterónimos, mais do que «drama em gente», são, cada um deles, a expressão individualizante de um conteúdo plural que se tornou singular no seu fazer-se, um ser que é diferente porque diferente foi o fazer dele.

Posta a questão nestes termos, seria fascinante ler Ricardo Reis como Ricardo Reis, e não como Fernando Pessoa. E o mesmo com Álvaro de Campos. Ou Alberto Caeiro. Ou Bernardo Soares. E todos os esboçados e inacabados heterónimos como crianças ou adolescentes que não puderam crescer, mas que eram já, no que foram, outros. E finalmente duvidar que os poemas ortónimos tenham sido realmente escritos por um Fernando Pessoa, tal como ele, com esse próprio nome, duvidou da sua existência. Estaríamos, aí, em pleno campo da esquizofrenia (com ressalva do emprego não de todo adequado da expressão), mas, correndo os riscos de quem ousa um passo em terreno tão instável, poderíamos agora interrogar-nos sobre a virtual maior produtividade duma leitura radiante, aceitando à letra aquilo que teria sido a verificação final de Fernando Pessoa: eu não sou eles. E talvez que «O Ano da Morte de Ricardo Reis» seja, em mais de quatrocentas páginas de prosa, tão-somente uma leitura que caminha ao longo de um raio, uma trajectória vital e poética a que nenhum outro poema pode ser juntado, mas em que se admite como plausível uma vida outra, que é mentira e por isso verdade outra, como a máscara é um rosto outro. Talvez seja preciso escrever também sobre os anos da morte de Alberto Caeiro, de Álvaro de Campos, de Bernardo Soares, para que sejam, cada um deles, cada vez menos Fernando Pessoa, como Fernando Pessoa os quis.

Há vertigem neste jogo. As máscaras olham-se sabendo-se máscaras. Usam um olhar que não lhes pertence, e esse olhar, que vê, não se vê. Colocamos no rosto uma máscara e somos outro aos olhos de quem nos olhe. Mas de súbito descobrimos, aterrados, que, por trás da máscara que afinal não poderemos ser, não sabemos quem somos. Está portanto por saber quem é Fernando Pessoa.

In JL. Lisboa, 26 de Novembro de1985



*** Texto - aqui.




terça-feira, 22 de novembro de 2011


10ª. semana ~ de 21 a 25 de novembro







  • Leitura(s)

- "A MÃO QUE ME FEZ"


e/ou em

Abraço, pp. 49-51.



  • Ouvir e Escutar
Fernando Alves

Sinais - TSF





segunda-feira, 7 de novembro de 2011


8ª. semana ~ de 7 a 11 de novembro







  • Entrega e correção dos testes.



[ - Pareidolia; - testes dos borrões de Rorscharch; - Dicionário do Cético]











segunda-feira, 31 de outubro de 2011


7ª. semana ~ de 31 de out. a 4 de novembro




Picasso, Mulher em frente ao espelho. 1932




  • "Diante do espelho", texto de José Saramago (pág. 143).
  • Imagens - leitura, compreensão.
  • Reflexão: o provérbio judaico (pág. 145).

  • Teste sumativo - estrutura. Que dúvidas?





segunda-feira, 24 de outubro de 2011


6.ª semana ~ de 24 a 28 de outubro




L. V. Beethoven






  • Modo conjuntivo.
  • "Retrato do artista quando jovem" - crónica de António Lobo Antunes.
  • Leitura. Compreensão.
  • Questionário orientado.




— Tenho ciúmes de tudo aquilo cuja beleza não morre. Tenho ciúmes do retrato que você pintou de mim. Porque há-de ele conservar o que eu tenho de perder? Cada momento que passa rouba-me a mim qualquer coisa e acrescenta-lhe qualquer coisa a ele. Quem me dera que fosse de outra maneira! Que o retrato mudasse e eu permanecesse sempre o mesmo que sou! Porque o pintou? Há-de escarnecer de mim, há-de escarnecer de mim, há-de escarnecer de mim horrivelmente!

Irromperam-lhe dos olhos lágrimas ardentes; retirou violentamente a mão das do pintor e atirou-se para o divã, em cujas almofadas escondeu a cabeça, como se rezasse.

Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray

Tradução de Artur Parreira


Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles





sexta-feira, 21 de outubro de 2011


5.ª semana ~ de 17 a 21 de outubro





Mário Eloy Pereira, Retrato de Matilde Pereira

(óleo sobre tela - 1923 - coleção particular)




  • As conjunções.
  • O retrato.
  • Trabalho de pares em torno de: olhar - ver. O espelho.


- T.P.C. -

A SENHORA DO RETRATO

Os retratos a óleo fascinam-me. E ao mesmo tempo assustam-me. Sempre tive medo que as pessoas saíssem das molduras e começassem a passear pela casa. Para falar verdade, estou convencido que isso aconteceu algumas vezes. Em certas noites, quando eu era pequeno, ouvia passos abafados e tinha a sensação de que a casa ficava subitamente cheia de presenças. Ainda hoje não gosto de atravessar os longos corredores das velhas casas com grandes retratos pendurados nas paredes. Há olhos que nos seguem do alto e nunca se sabe o que de repente pode acontecer.

Havia na casa da tia Hermengarda um quadro deslumbrante. Ficava ao cimo das escadas, à entrada do corredor que dava para os quartos de dormir. Mesmo assim, rodeado de sombras, irradiava uma luz que só podia vir de dentro da dama do retrato. […]

Manuel Alegre, in O Homem do País Azul